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Escritos3

"Portiere di notte", de Liliana Cavani, é um dos meus filmes predilectos. Pelo argumento, pela realização e pelo extraordinário desempenho dos protagonistas, Dirk Bogarde (Maximilian Theo Aldorfer) e Charlotte Rampling (Lucia Atherton).
O filme, de 1973, desencadeou uma fortíssima polémica. Lucia é uma sobrevivente de um campo de concentração nazi que, trinta anos depois da "libertação", encontra, finalmente, em Viena, o seu antigo "torturador", agora um discreto porteiro de hotel. No campo de concentração, Max "afeiçoara-se" a Lucia (então, uma adolescente), forçando-a a manter com ele (em troca da vida) uma relação sadomasoquista. Trinta anos depois, Lucia procura Max para vingar definitivamente a violência de que fora vítima. Mas, na hora do ajuste de contas, Lucia cede à memória do corpo e retoma a relação com Max...
Isto passa-se em Viena, a mesma Viena em que Natascha Kampusch, então com 10 anos, foi raptada e mantida em cativeiro, durante oito anos, por um psicopata. Parece que, nos últimos tempos, o sequestrador, que entretanto se suicidou, levava a sua vítima a passear pelo bairro onde vivia e até a fazer compras. Nunca Natascha procurara fugir ou alertar a vizinhança para a situação em que se encontrava. Dir-se-á que procurava ganhar a confiança do sequestrador, preparando uma fuga fulminante. Não estou nada certo disso. Estou antes convencido de que Natascha, como Lucia Atherton, se convertera afectivamente ao seu sequestrador e que foi um qualquer ruído na comunicação com ele que a impeliu, subitamente, à fuga.
Os jornais falam agora, a propósito deste caso insólito, do "síndrome de Estocolmo". Em Agosto de 1973 (raio de coincidência: o ano em que Liliana Cavani rodou "O Porteiro da Noite"!), várias mulheres foram vítimas, em Estocolmo, de um assalto, seguido de sequestro, que se prolongou por seis dias. Detidos, finalmente, os sequestradores, eles viriam mais tarde em tribunal a ser defendidos por algumas das mulheres sequestradas. Mais: duas dessas mulheres viriam a casar com os próprios sequestradores!
Natascha já não poderá casar com Wolfgang Priklopil, supostamente, o seu raptor e sequestrador. Mas eu não ficaria muito surpreendido se, amanhã, ela viesse publicamente defender a sua memória, dizendo, talvez, que chegara a amá-lo. Provavelmente, não haverá feitiço mais poderoso para desencadear a paixão do que o próprio cárcere...

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