setembro 01, 2006

MUDANÇA DE INSTALAÇÕES E DE PLATAFORMA...

Dois anos e quase dois meses depois, o abnoxio muda, definitivamente, de instalações e de plataforma. A partir de hoje, passa a estar alojado na plataforma weblog.

O endereço (para que vos remeto) é o seguinte:

abnoxio.weblog.com.pt

Lá nos encontraremos. E lá vos esperarei.

Enviado por ademar.santos em 03:04 PM

agosto 31, 2006

Diário em forma de silêncio (34)...

Foi o primeiro concerto a que te levei. No Rivoli, lembras-te? Duas noites de "Europa Galante". Deves ainda conservar o programa, porque conservas tudo, compulsivamente. Até me conservas a mim. Não foi Bach, foi Vivaldi. Tu ainda não sabias que o violino podia ser tocado assim, quase como um brinquedo, um brinquedo irrequieto nas mãos de uma criança. Uma criança adulta, por certo, mas ainda uma criança. Há crianças que se recusam a crescer, quando crescem com um brinquedo em forma de violino nas mãos. E não tem que ser Stradivarius, verdadeiro ou falso, como aquele em que te toquei. Nessas duas noites a ver e a ouvir Fabio Biondi, o ano pareceu-nos ter muito mais do que quatro estações...

C.A.

Enviado por ademar.santos em 09:49 PM

Improviso para cremar Woodstock...

Tudo parecia tão
simples
entre nós
nesse tempo
em que éramos só matéria
e as palavras
não engravidavam de metáforas
bastava dizer
amor
e tudo acontecia
deslumbradamente
como
numa eterna primeira vez
ainda te lembras?
era assim
depois adoecemos
de memórias.

Ademar
31.08.2006

Enviado por ademar.santos em 07:27 PM

agosto 30, 2006

Diário em forma de silêncio (33)...

É o medo que me alimenta e que, insidiosamente, me destrói. Tu percebeste-o depressa e tentaste, em vão, ajudar-me a cerrar as grades desta prisão que me recolhe. Lembrar-te-ás, eu sei, de todos os pormenores. O carro que estacionava discretamente, longe de tua casa. O silêncio que eu te impunha quando tocava o telemóvel. As carícias, em público, que não te autorizava. As mil e uma mentiras que contava, para te negar. O medo, sempre o medo. O medo de te perder, o medo de perder os amigos, o medo de perder a família, o medo de perder tudo... até o medo de me perder. As mulheres, neste país, ainda são predestinadas ao medo. Mesmo quando, na ilusória aparência, não tropeçam nele. O medo...a nossa mais íntima intimidade... a ameaça interior, permanente, do óvulo eternamente fecundável...

C.A.

Enviado por ademar.santos em 11:29 PM

Apelo...

Há mais de dois anos que, patrioticamente, sou fiel à plataforma "sapo". O abnoxio afeiçoou-se à plataforma e eu deixei andar, apesar das limitações de espaço que me obrigaram a triplicar o blogue (este é já o abnoxio3). Para trás, desde Julho de 2004, ficam quase 2.400 "postes". Em Fevereiro ou Março, pedi aos gestores do sapo uma solução técnica para o abnoxio, que me permitisse reunir numa só as três edições do blogue. Sem as estúpidas e proverbiais limitações de espaço. Prometeram-me, entre simpatias e muitos elogios, uma solução. Até hoje. A pátria funciona assim e raramente compensa...
Sem resposta dos gestores do sapo, estou em vias, uma vez mais, de esgotar o espaço disponível e ter de criar uma quarta edição do abnoxio. Mas já não sei se o farei na plataforma sapo. Hoje, espreitei a nova versão "beta" e fiquei assustado. É adolescência a mais para mim... e eu que nem aprecio morangos com açúcar... A apresentação dos blogues "sapo" envolve agora "olhinhos", muitos "amigos" e mais uma série de minudências que me fazem sentir um idiota. C'os diabos: eu quero uma coisa discreta, simples de criar e manter. Alguém me sugere um bom abrigo para o abnoxio4?...

Enviado por ademar.santos em 09:55 PM

Improviso quase pornográfico...

Entre a espécie e o género
há lábios em ti a mais
e a menos
o teu excesso de humidade
endurece-me
sinto-me impelido ao naufrágio.

Ademar
30.08.2006

Enviado por ademar.santos em 03:16 PM

Improviso para celebrar Aristóteles...

Eu sei
é uma metáfora masculina
o esperma do teu riso
o pudor tem género.

Ademar
30.08.2006

Enviado por ademar.santos em 12:31 AM

agosto 29, 2006

Maximinos...

Moro exactamente na freguesia onde nasci, uma das sete, ditas, urbanas de Braga e, provavelmente, em termos de "urbanização", a mais "antiga" de todas. O centro cívico da cidade romana, Bracara Augusta, ficaria a pouco mais de cem metros do local onde vivo. Dele, já nada resta, senão memórias (que poucos guardam). De resto, o quintal da casa onde nasci faria fronteira com aquela que terá sido, há dois mil anos atrás, a muralha da cidade romana. Tenho, como bracarense, genes antigos, muito antigos, habituei-me desde criança a conviver com a história...
No fim de jantar, costumo vagabundear pelo "bairro"; ruas antigas, modernas avenidas. Casas velhinhas, ruínas de casas, vivendas dos anos sessenta e setenta, medonhos prédios de apartamentos, pequenos centros comerciais (parcialmente abandonados). Quando eu era criança, muito pouco disto existia. Braga era uma cidade que parecia parada no tempo. Hoje, deslocada do tempo, parece-se excessivamente com as periferias de todas as grandes cidades da europa.
Passeio, porém, em paz. É uma freguesia que não respira medo nas ruas. Se saísse em pijama, provavelmente, ninguém repararia em mim. Raramente me cruzo com grupos de adolescentes em fúria. E, apesar de ter nascido aqui, há quase 54 anos, raramente, também, me cruzo com gente conhecida. A gente da minha idade "emigrou"; a gente mais velha morreu ou faz o que pode para honrar as leis da vida...
Mas continuo a reconhecer aqui o Portugal antigo e o Portugal moderno. O Portugal antigo, cada vez mais residual e fantasmagórico, continua à janela, a espreitar quem passa. O Portugal moderno desce as persianas, aprisiona-se em casa e, muito provavelmente, presta vassalagem ao pequeno écran. Numa ou noutra tasca, ainda pressinto o alvoroço dos machos que jogam a sueca e esgotam o vinho a martelo. Os jovens entretêm o tempo nas esplanadas, antes de seguirem para as discotecas. As prostitutas, discretíssimas, tentam desviar os clientes para a residencial, convertida, nos últimos anos, em bordel. Em cada esquina, um café. Os restaurantes, à míngua de clientela, fecham cedo. Depois das 19 horas, já não há mais comércio para ninguém. A noite no meu "bairro" é isto, uma melancolia docemente desorganizada, recolhida numa antiquíssima "aurea mediocritas". Salvaguardadas as circunstâncias, o país não é muito diferente...
Mas, neste clima, que noite não apetece à vagabundagem?...

Enviado por ademar.santos em 11:22 PM

Improviso em forma de haiku para dizer o movimento...

Regresso ao fim
onde me encontrarei
com o princípio de tudo.

Ademar
29.08.2006

Enviado por ademar.santos em 03:21 PM

Diário em forma de silêncio (32)...

A tua paixão por Léo Ferré, o nosso desencontro. A música bebe da memória e a minha memória passou ao largo da tua. Eu não cantei, no rescaldo de Maio, entre barricadas, "ni dieu, ni maitre". Eu não ergui altares ao eu universal, não entrei em revoluções para me salvar (ou para me perder). Fui sempre uma menina discreta e passiva, que espreitava pelo buraco da fechadura... o palco (a festa) dos homens. De vez em quando, deixava-me conduzir ao palco e ser servida ("cette blessure"). Os teus gritos e as tuas gargalhadas... e eu a pedir-te que não fosses tão expressivo, tão...sincero. Eu, que era, afinal, toda a tua alegria...
Como era mesmo o título daquela canção? "On s'aimera"? "L'amour fou"?...
Já só me lembro do estribilho: "je vous aime, d'amour"...

C.A.

Enviado por ademar.santos em 03:15 PM

agosto 28, 2006

Improviso para melancolizar...

Como se tivessem morrido
os teus cabelos já não cheiram
agora deserto-me de ti
e perco-me dos demais sentidos
até ao pensamento
fecho a porta e apago a luz
em mais uma cela
neste presídio de ausências.

Ademar
28.08.2006

Enviado por ademar.santos em 11:24 PM

Improviso para distrair grilações...

Sim
há noites em que já me faltam estrelas
e em que a própria lua
parece zangada comigo
como se o guião do filme me desconhecesse
há grilos a menos
nas palavras que agora me interpelam
esses grilos cujas vozes
ouvias tão longe
e tão perto de mim
quando as noites não eram assim
há um desejo de grilos
nesta evidência que me perde
nesta saudade de não sei o quê
talvez de nós
quando contávamos estrelas
e interrogávamos a lua.

Ademar
28.08.2006

Enviado por ademar.santos em 10:22 PM

Do Brasil, sem amor...

O meu avô paterno, Veríssimo Augusto, que não cheguei a conhecer, era "carioca". Terá vindo para Portugal na juventude, para cursar medicina, em Coimbra. E por cá ficou. Seguramente que herdei dele, apesar do meu pai, uma parte dos genes que me inventaram. Não estranheis o advérbio: o facto é que o meu pai raramente falava do meu avô e, quando o fazia, contava o menos possível e de uma forma quase contrafeita. Na viragem do século, de dezanove para vinte, os meus bisavós paternos (rezam as crónicas) eram prósperos industriais de panificação no Rio de Janeiro. Suponho que, depois da morte dos meus bisavós, o negócio não ficou na família, mas, pelo pouco que ouvi contar, sei que a gestão da herança não foi pacífica. O meu pai, pelo menos, evitava falar do assunto...

No Liceu Nacional Sá de Miranda, que frequentei, um dia fui chamado ao gabinete do Reitor. Era uma figura enorme, que as alcunhas pouco cordiais, de resto, sublinhavam. Naquela época, nenhum aluno era chamado ao Reitor pelas melhores razões. Embora não me pesasse a consciência (eu era, na altura, um adolescente bem comportado) de ter transgredido as normas, a verdade é que o inesperado da convocatória deixou-me em sobressalto. Alguma patifaria (a culpa dormia sempre comigo) eu devia ter cometido (ou alguém por mim)... Mas não, o Reitor não queria admoestar-me, nem castigar-me: queria, apenas, chamar a minha atenção para uma fotografia antiga, solenemente encaixilhada, que descia de uma das paredes do gabinete. Era uma fotografia de grupo, fixada, se bem me lembro, nos anos quarenta. O Reitor pediu-me que observasse bem a fotografia e que lhe dissesse se, no grupo retratado, reconhecia alguém. Nos meus doze ou treze anos, quem é que eu poderia reconhecer? A medo, respondi que não. O Reitor retirou então o caixilho da parede, pousou-o sobre uma mesa e, um a um, começou a dizer-me os nomes dos retratados, um dos quais (um dos mais jovens) era ele próprio. Quando já só lhe faltava identificar um dos elementos do grupo, ele apontou-o com um dedo (que, no momento, me pareceu imenso) e voltou a perguntar-me se o reconhecia. A minha atrapalhação fê-lo abreviar a tortura: explicou-me que era... o meu avô. Foi a primeira vez que vi uma imagem do meu avô paterno. O Reitor esclareceu-me que ele fora, durante muitos anos, o médico do Liceu. E rematou a sabatina, antes de me despachar, sublinhando que eu teria sempre de honrar, como aluno, a ilustre memória do meu avô... Devo ter gaguejado alguma coisa em jeito de compreensão e assentimento e voado dali, meteoricamente, antes que algum "crime" me fosse, finalmente, imputado (como eu receara). Se a memória não me engana, não contei a ninguém, nem em casa, o que se passara. Se ninguém falava do meu avô Veríssimo, por alguma razão seria: calei-me.

Percebi mais tarde por que o meu pai evitava falar do pai dele. Não era "exemplo" que ele desejasse apontar à magra descendência (eu e a minha irmã). O meu avô, que era dado à escrita, à política e ao jornalismo, não tivera filhos da "esposa legítima" (que, pelos vistos, desapareceu depressa da sua vida) e entretivera-se a engravidar, "en passant", mulheres que seduzia (incluindo aquela que terá sido a minha avó paterna e que o meu pai, suponho, não terá chegado a conhecer). Mais grave ainda: sem os rejeitar, ele não "perfilhara" os filhos (o meu pai ostentava apenas o apelido da mãe). E, apesar de médico, investira muito pouco na sua (deles) educação e formação. Embora o meu pai (de resto, sempre muito pouco loquaz) evitasse tocar no assunto, sempre ficou claro para mim que ele sofria, amarguradamente, a memória do meu avô, preferindo não falar dele. Sem mãe e quase sem pai, "educado" por uma "criada" que ele tratava, delicadamente, por "mãezinha" (e que terá sido a minha "madrinha" de baptismo), imagino como a infância lhe terá sido dolorosa e como o terá marcado, terrivelmente, para sempre. Morreu prematuramente, sem ter conseguido ganhar o afecto do único filho varão. Ironias que o destino tece...

Enviado por ademar.santos em 09:35 PM

agosto 27, 2006

Diário em forma de silêncio (31)...

É uma espécie de jogo. Sei que escrevo para que me leias e publiques, ainda que não desejando que me desejes. Será talvez sadismo: quero apenas que rastejes diante das minhas palavras, que dialogues sofridamente com elas, como eu já dialoguei, sofridamente, com os teus silêncios. A vida não é mais do que isto: um jogo contínuo, em que uma vezes perdemos e outras, ganhamos...perdendo sempre. Esta será a minha forma (e a minha vez) de t'o provar...

C.A.

Enviado por ademar.santos em 11:18 PM

Egoísmo...

Por vezes pergunto-me: por que não o suicídio? Admito que, de vez em quando, é uma pergunta que não estranho. Saber que, no dia seguinte, e no dia seguinte, e no dia seguinte, não teria de me preocupar mais com a mercearia da vida... ah! como é tão agradável... De resto, tenho o problema simplificado: não espero pela morte para ajustar contas com nenhum deus. Tenho as mãos livres, não me pesa, na consciência, a eternidade. Há, porém, uma razão muito pouco filosófica (ou talvez não) que me inibe ao suicídio: os meus filhos. Não sei se eles precisam de mim. Sei, apenas, que eu preciso deles. Precisamente, para sobreviver...

Enviado por ademar.santos em 10:51 PM

Improviso para piscar o olho ao Henrique...

Gaveta a gaveta
haverá segredo que te resista?
a novidade não descansa
nos teus olhos
as mãos são culatras
que te disparam
e eu que desejo que me devasses
servirão os pais para coisa distinta?
desvenda-me com essa chave
que é agora o teu tesouro
e não olhes para trás
que eu estarei sempre a ver-te.

Ademar
27.08.2006

Enviado por ademar.santos em 09:23 PM

agosto 26, 2006

"Lindo e maravilhoso!... (um comentário)

Eu já imaginava que a entrada anterior iria valer-me alguns "puxões de orelhas". Antecipadamente, de resto, eu já pedira perdão aos meus amigos brasileiros pela... diatribe. A A.B., leitora fiel do abnoxio e querida amiga, foi a primeira a reagir. Transcrevo as suas observações.

"Sei que não é a primeira vez que te convido a reparar melhor este meu país. Sei também que estás coberto de razões, principalmente se o teu contato aí é com turistas brasileiros, certamente na sua maioria novos ricos maravilhados por conhecerem a "Europa". Pois é claro que para estes, Portugal é o quintal da Europa, mas é Europa!!
Porém, quem sabe se tu fizeres um esforço para nos conhecer, nós os que economizamos as expressões "lindo", "maravilhoso", poderias ser mais justo em relação ao Brasil.
Cobro-te sim, tolerância. O Brasil real tem coisas lindas e maravilhosas, e tem misérias aterrorizantes, governos corruptos e mentirosos, lugares de uma simplicidade e beleza que chegam a doer nos olhos e na alma, injustiças alarmantes, pessoas incríveis pela sua generosidade e comprometimento com um Brasil diferente deste que há 506 anos nos atormenta!...
Além do mais, eu que não conheço Portugal, quando recebo daí slides e fotos, acho Lisboa linda, maravilhosa, pomposa, iluminada. Admiro as praças cuidadas, as pessoas bonitas e elegantes. Outras fotos vêm de lugares que não são Lisboa e às vezes vejo rostos tristes, aldeias obscuras, tão parecidas com as minhas aldeotas daqui. E sei que não me achas uma imbecil.
Supera tuas ranhetices em relação ao meu país. Mesmo que nunca queiras conhecer o Brasil e outros brasileiros, dá-nos a misericórdia de não nos enfiar a todos no balaio dos deslumbrados!"

A.B.

Enviado por ademar.santos em 07:57 PM

"Lindo e maravilhoso!..."

Os meus amigos brasileiros que me perdoem, mas já não aguento mais, são muitos anos de tortura..."Lindo e maravilhoso!"... não há brasileiro mediatizado (nem brasileira, naturalmente) que, aterrando em Portugal, este longínquo (para eles) quintal de idiotas, não diga aos repórteres de serviço que é... "lindo e maravilhoso!"... Eu ainda não descobri o que é "lindo e maravilhoso!", mas os brasileiros estão sempre a repetir a fórmula, não vá a gente pensar que eles não acham que tudo, aqui, é "lindo e maravilhoso!".
Um dia, um querido amigo brasileiro perguntou-me por que raio de razão (para ele, incompreensível) eu não correspondia aos convites para ir ao Brasil. Delicadamente, menti-lhe. Disse-lhe que tinha medo de andar avião e ele, felizmente... acreditou. Não, eu não tenho medo de andar de avião: eu, simplesmente, não consigo imaginar-me no meio de um povo que me diz, em cada frase, que é "lindo e maravilhoso!". Ao Brasil de todos os deuses e de todos os adjectivos, eu hei-de preferir sempre, irracionalmente, o inferno (isto, se ainda é possível distingui-los)...
Mea culpa...

Enviado por ademar.santos em 03:45 PM

agosto 25, 2006

Diário em forma de silêncio (30)...

Sempre me senti, na intimidade do teu universo, uma espécie de visita. Eu não estava em ti; eu passava por ti, batia, simplesmente, à tua porta e tu recebias-me. Procuravas sempre agradar-me, como se agrada às visitas que estimamos. Mas eu tinha consciência de que não te pertencia. Não seria, certamente, uma "estranha"; seria até alguém cuja presença, de vez em quando, desejavas - mas nunca consegui romper essa fronteira que protegia o teu casulo, esse território povoado de segredos que ninguém, jamais, desvendará. Reconheci-te sempre nessa ausência. E frequentei-te assim, sabendo que apenas te visitava.

C.A.

Enviado por ademar.santos em 11:52 PM

O feitiço do cárcere...

"Portiere di notte", de Liliana Cavani, é um dos meus filmes predilectos. Pelo argumento, pela realização e pelo extraordinário desempenho dos protagonistas, Dirk Bogarde (Maximilian Theo Aldorfer) e Charlotte Rampling (Lucia Atherton).
O filme, de 1973, desencadeou uma fortíssima polémica. Lucia é uma sobrevivente de um campo de concentração nazi que, trinta anos depois da "libertação", encontra, finalmente, em Viena, o seu antigo "torturador", agora um discreto porteiro de hotel. No campo de concentração, Max "afeiçoara-se" a Lucia (então, uma adolescente), forçando-a a manter com ele (em troca da vida) uma relação sadomasoquista. Trinta anos depois, Lucia procura Max para vingar definitivamente a violência de que fora vítima. Mas, na hora do ajuste de contas, Lucia cede à memória do corpo e retoma a relação com Max...
Isto passa-se em Viena, a mesma Viena em que Natascha Kampusch, então com 10 anos, foi raptada e mantida em cativeiro, durante oito anos, por um psicopata. Parece que, nos últimos tempos, o sequestrador, que entretanto se suicidou, levava a sua vítima a passear pelo bairro onde vivia e até a fazer compras. Nunca Natascha procurara fugir ou alertar a vizinhança para a situação em que se encontrava. Dir-se-á que procurava ganhar a confiança do sequestrador, preparando uma fuga fulminante. Não estou nada certo disso. Estou antes convencido de que Natascha, como Lucia Atherton, se convertera afectivamente ao seu sequestrador e que foi um qualquer ruído na comunicação com ele que a impeliu, subitamente, à fuga.
Os jornais falam agora, a propósito deste caso insólito, do "síndrome de Estocolmo". Em Agosto de 1973 (raio de coincidência: o ano em que Liliana Cavani rodou "O Porteiro da Noite"!), várias mulheres foram vítimas, em Estocolmo, de um assalto, seguido de sequestro, que se prolongou por seis dias. Detidos, finalmente, os sequestradores, eles viriam mais tarde em tribunal a ser defendidos por algumas das mulheres sequestradas. Mais: duas dessas mulheres viriam a casar com os próprios sequestradores!
Natascha já não poderá casar com Wolfgang Priklopil, supostamente, o seu raptor e sequestrador. Mas eu não ficaria muito surpreendido se, amanhã, ela viesse publicamente defender a sua memória, dizendo, talvez, que chegara a amá-lo. Provavelmente, não haverá feitiço mais poderoso para desencadear a paixão do que o próprio cárcere...

Enviado por ademar.santos em 04:25 PM